Não morreu ninguém

Há umas semanas, numa manhã de domingo, circulava eu numa estrada nacional. O trânsito começou a entupir e todos se desviavam de um obstáculo. Também me desviei, tal como o meu olhar se desviou da estrada para ver o que era.

Era um senhor estendido no chão. Voltei atrás, deixei o carro a ocupar as duas vias, propositadamente. Saí e tranquei.

Algumas pessoas reclamaram, outras apitaram. Deviam “ter o bacalhau ao lume”.
Fui ver o que se passava. O senhor respirava, dei-lhe umas chapadinhas na cara para o acordar. Perguntou-me se tinha morrido alguém. Disse-lhe que podia, se ele ficasse a dormir estendido no meio da estrada.

Felizmente era só um bebado que tinha encontrado ali uma sombra.


Missão GASTAGUS, ACRIDES 2011

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Um ano a preparar-me para algo, e fazia ideia para onde ia? Óbvio que não! Foi uma das experiências mais frenéticas da minha vida, toneladas de informação choviam a toda a hora, oxalá fosse igual com a água dos céus.

Histórias de quebrar o coração, aquelas vidas e todo o desperdício humano, e também os potenciais grandes homens e mulheres. Verdadeiros economistas e engenheiros do dia-a-dia; com uma rolha e um alfinete fazem uma festa que dura quantos dias o corpo aguentar; com um garrafão de água tomam-se dois banhos ou mais.

Nem sempre houve tempo para comer, nem sempre havia água engarrafada ali disponível. Dormimos pouco devido ao trabalho, à experiência e ao calor abrasador – até que o corpo se habitue.

Foi pesado para o corpo e para a consciência, levou-nos a questionar tudo. Nada que, ao fim de 3 dias sem água, um banho di chuva não aliviasse e nos desse de volta o ânimo para mais.

Se é duro? É! Mas assumo como a experiência de uma vida. Um mundo de extremos; assistimos ao pior e o melhor que a alma humana pode dar. Apaixonante! Emocionante! Gratificante! Amor! A repetir!

Uma experiência destas devia ser obrigatória a qualquer pessoa neste mundo.

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Artigo original AQUI!


Il Paradiso Perduto

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Basicamente, há muito que procurava aquele sítio, mas sem grandes esforços nesse sentido.

Numa vulgar caminhada à procura de tudo, e de nada ao mesmo tempo encontrámos um senhor a mudar a água às azeitonas no meio duns arbustos. Assim que ele saiu, ficou descoberto um trilho.

Decidimos ver onde dava esse desconhecido trilho, sempre seguindo o que nos parecia ser um trilho, concerteza mais usado que visivel em todas as suas secções.
Começámos a subir, a escalar, a subir e quando demos conta já as pessoas que passavam no nosso ponto de partida pareciam formigas.
Subimos mais um pouco para ver onde dava; e quando demos conta, estávamos no topo d’A FENDA.

Descemos, rocha após rocha, e encontrámos algo que se classificaria como um submundo mesmo ali entre as praias e a estrada, com acesso meio tricky.

Havia umas vinte pessoas a escalar lá dentro, independentes umas das outras.
O sítio é dos mais maravilhosos que já encontrei, são duas paredes calcárias enormes, próximas uma da outra e com uma extensão maior que 1km.

Há árvores e vegetação, autênticas galerias a céu aberto; diria que entrei no Tomb Raider, fiquei sem perceber se estava algures num documentário BBC na América Latina ou ainda em Portugal.

Depois escalámos pelo sentido oposto ao qual tínhamos vindo e encontrámos estrada após 15min de caminho.
O caminho é também meio tricky, mas nada do outro mundo.
Uma ou outra secção escalada e uma fissura numa rocha com alguns 5m de profundidade e com 30cm de comprimento, nada não “saltável”, mas quando olhei para baixo fiquei com medo.

Um dos sítios mais maravilhosos e bonitos onde já estive, e quase à porta de casa.


Protesto Anti ACTA, Lisboa 11Fev2012

anti-acta protests

Embora não fosse muito visivel nos mass media, Lisboa foi palco de uma manifestação simultânea a muitas iguais pelo país e mundo fora. Cada um dos manifestantes, na sua maioria mascarados, teve direito à sua voz, a empunhar o megafone. Um protesto de todos e para todos, sem uma liderança central e com o aval comum.

Manifestação contra uma assinatura que permite criar uma lei que vai contra toda a liberdade que temos.
Ao alegar-se uma invenção, será possível patentear a mesma e restringir o acesso de tudo o que imaginarmos, seja educação (cultura, música, filmes), sementes, medicamentos, software, receitas; qualquer tipo de ideia…
E também, o que ninguém nos diz é que Portugal é um dos países que compactua com algo que se for aceite definitivamente, só terá tendência a crescer nas mais variadas formas.

Num mundo que se afirma cada vez mais aberto e para os pro-activos com vontade de arriscar, as grandes industrias são piegas, resistem à mudança e fazem birras porque o mundo digital e ávido de mudança que criaram lhes ameaça a zona de conforto.


O que é a ACTA?
Mais Imagens aqui


o motivo de chegar lá acima

o que é facto é que não existe motivo palpável para chegar lá acima.
muitas vezes nem sei que vou lá acima, acontece por intuição, e quando lá chego, reparo que cheguei.

muitas vezes subo apenas para descer, para lá permanecer o tempo que for necessário. o tempo necessário para deixar de sentir o que é “lá” em baixo, para me desprender de tudo aquilo que me afasta da vida e de mim próprio; e tudo aquilo que me afasta de mim próprio não sou eu, são os rails da autoestrada, são também aqueles atalhos que não vão dar a lugar algum ou aquelas luzes que afinal não eram ouro.

eu subo lá acima para chegar, só porque sim. como tudo aquilo que não é palpável, e é muitas vezes fútil; mas são o distanciamento e afastamento que nos ajudam a reencontrarmo-nos e a chegar onde sempre quisemos, àquele sítio que está tão perto, que sempre viveu conosco e que no final é o mais longe, profundo, sombrio e difícil de enfrentar e encarar: a nós mesmos!

é por isso que amo a montanha, a dificuldade de chegar lá acima, de me ultrapassar e conquistar, mesmo que seja num dia nublado ou a paisagem afinal não seja a tal, valeu pela viagem.


the machine

a tecnologia que tanto nos ajuda,
tem-nos feito esquecer, desprezar e inutilizar todas as nossas reais capacidades
como seres (vivos), como animais.

faz-nos dispersar da nossa real natureza,
do contacto com outros seres humanos.

torna-nos mais fracos.

estamos cada vez mais trabalhadores, em busca de objectivos que não são os nossos,
e cada vez menos sociais.

todas as actividades que nos fazem sentir fortes fisicamente, podem ser feitos em frente a um ecrã, mas a sua intensidade é quase nula.
o contacto com outros pode ser mantido através de máquinas. o numero de pessoas com quem contactamos pode ser maior, mas a sua intensidade é quase nula.


sem titulo

o homem actual é um ser solitário e esqueceu-se que tem uma vida melhor por conquistar.
vive em cima do risco na correria do dia-a-dia, sabe que nao pode falhar.

refugia-se em programas de televisao e em compras que não fazem sentido. Esqueceu-se de valorizar as próprias capacidades que diariamente substitui com ferramentas e compras.
deixou de criar para consumir.  Deixou de ser capaz.

passamos a nossa vida na cidade, negando o sol e a nossa propria natureza.
vivemos afastados da verdadeira natureza que destruimos diariamente.

tornamo-nos medrosos. temos medo das doenças, das catastrofes, da solidao e até do proprio vizinho que já não conhecemos.
temos vergonha de mostrar afecto, de mostrar e dizer que amamos, porque isso é para os chamados fracos.

na correria, há cada vez mais pessoas sozinhas e sem ter com quem partilhar. A familia deixou de ser o que era por não haver tempo.

o TER deu lugar ao SER.
deixamos de ser quem eramos, nao sabemos quem somos e andamos perdidos.